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Postagens

Sobre tomates e livros

Aqui em casa tem alguns pés de tomate, eu comprei três saquinhos de semente e nós acabamos plantando só um, já que eram muitas sementinhas. Primeiro, usamos uma bacia como sementeira, quando eles ficaram maiorzinhos passamos para o chão, e entre uma rega, a chuva (que por aqui é constante), nossos cuidados e afeto, os tomatinhos cresceram e agora estão só esperando a mudança do verde para o vermelho. Muitas coisas que acontecem no dia a dia puxam os fios das minhas memórias, e eu acabo sempre fazendo um link entre elas e o presente. Os tomatinhos são o caso mais recente. Quando eu era uma pessoa pequena (como dizem os esquimós), na minha casa sempre tinha muitos cachorros, gatos, pássaros e plantas. De maneira que o cuidado com todos esses seres e a troca de energia com eles sempre foram de vital importância para mim. Colocar uma sementinha no algodão, vê-la crescer, transplantá-la, dar carinho para que se transformasse num ser exuberante; ou cuidar de um cachorrinho achado na rua at…
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Sobre o ofício de escrever em terras papagalis

Quando  Caio Fernando Abreu escreveu o livro Os Dragões não conhecem o paraíso, uma jornalista perguntou a ele o que significava o título.
Caio F. explicou que era uma homenagem a escritores e escritoras que, assim como os dragões, são – nesse nosso Brasil, sempre com um pé no primeiro mundo e dois no terceiro – figuras míticas, que vivem catando serviço aqui e ali para poderem continuar escrevendo. O paraíso seria o mercado – esta entidade amorfa e sinistríssima –, do qual os dragões não fazem parte.
Vida de escritor profissional – entenda-se aqui aquela pessoa que se considera escritor e se esforça no sentido de ser um – não é fácil, a gente pega freela daqui, freela dali, pra cobrir o dia a dia e continuar escrevendo. É revisão, é tradução é tudo e tal e que tal. O leitor deve estar pensando por que, então? Porque tem um chamado que vem não sei de onde, talvez do cosmos, de outras linhas da vida, de outros sóis, do karma, que tem de ser atendido, e caso não seja corre-se o risco da al…

Estranho é o amor quando já não está

O livro Estranho é o amor quando não está  foi escrito para ser publicado em capítulos semanais no clube de literatura lésbica Wonderclub. O primeiro capítulo fazia parte de um conto que eu havia escrito e que entraria no meu livro Quase Nada. Porém, como em literatura tudo é dinâmico e imprevisível, resolvi não colocá-lo no livro de contos , mas usá-lo para dar início à história que viria a se tornar o livro Estranho é o amor.....
Este livro é uma quase-memória, e, em geral,  a nossa memória trabalha como uma peneira de malha fina que deixa passar as coisas boas que vivemos e retem as que nos magoaram, no entanto, ao escrever este livro, procurei não usar nenhum tipo de peneira. Deixei que ele se tornasse o que veio a ser, uma confissão de estados emocionais que deveriam ser curados. E mais uma vez, a literatura cumpriu seu papel como um agente de cura.

https://www.amazon.com.br/dp/B07468JPRB

Neon

Os orientais e os espiritualistas dizem que há uma unicidade entre o corpo e a alma, já os ocidentais com pensamento cartesiano sugerem o contrário, o que me leva a crer que o dilema entre o corpo e a alma ainda perdurará por muito tempo. Deixei a metafísica de lado quando a vi entrando. O corpo, a primeira vista, parecia perfeito: alta, magra com substância e curvas, pele sem nenhuma marca ou mancha, o cabelo castanho claro que caía pelas costas em fios retos, e insuportavelmente jovem. Até Krishinamurti pararia para vê-la passar. Na atmosfera meio esfumaçada do bar, ela se movimentava como um elfo atravessando uma floresta medieval, fornecia luminosidade ao ambiente. Deixei meu livro sobre a mesa, ao lado do copo de conhaque, e passei a observá-la e absorvê-la, até ela sair. Todo final de tarde eu voltava ao bar na esperança de vê-la mais uma vez, ia acompanhada de um livro, bebia o conhaque de sempre e esperava. Depois de cinco dias, o elfo apareceu ofuscando tudo ao redor. Vestia uma…

De braços abertos

Ouço Caetano cantar “meu mar e minha mãe, meu medo e meu champagne, visão do espaço sideral”, leio Caio Fernando Abreu e, ainda, são sete da manhã. Lá fora faz 5 graus e uma neblina tão espessa que me impede de enxergar e de sair para caminhar. Aqui de dentro te escrevo; te escrevo devido a uma necessidade absurda. Não te conheço, assim como você também não me conhece, somos estranhas que numa das voltas da roda da vida acabarão se tocando. Te escrevo porque quero te mostrar um pouco dos meus inúmeros pedaços, quem sabe assim a gente possa se encontrar em algum livro, em algum objeto, em algum cheiro que faça parte de nós duas. Olho para a estante e vejo tantas leituras que passaram pela minha vida e que deixaram marcas, como aquelas que fazem nos animais, “você me leu, agora você é minha”, sabe como? Virgínia Woolf, Thomas Mann, Saramago, Clarice, Lygia, Caio F., meus estudos sobre budismo e sobre ovnis. Cada um deles tatuou algo em minha alma. Na penteadeira, que tem quase 50 anos e per…

Genderqueer

Tirésias é uma figura que sempre me instigou mais do que intrigou. Ele faz parte da mitologia grega e aparece na trilogia tebana do dramaturgo grego Sófocles e, também, nos cantos X e XI da Odisseia. Nascido como homem, ele se transforma em mulher após matar a fêmea de um casal de cobras que copulavam no Monte Citorão. Depois de sete anos ele retorna ao Monte Citorão e acha novamente um casal de cobras copulando, desta vez mata o macho e se transforma em homem. Por saber como é pertencer aos dois sexos, um dia ele é chamado por Zeus e Hera para opinar sobre quem sente mais prazer numa relação sexual, se o homem ou a mulher. Hera, que afirmava que era o homem a sentir mais prazer, sente-se ultrajada quando Tirésias diz que quem sente mais prazer é a mulher. Como vingança ela o cega. Zeus, compadecido da situação do pobre Tirésias, lhe dá o dom da profecia. E é do adivinho uma das falas mais bonitas das tragédias gregas: “Deus! Como é terrrível o dom da sabedoria quando não serve a quem o…
“Ler Madame Bovary é um prazer estético, apreciar ao vivo um quadro de Van Gogh ou o Apoxiomeno é um prazer estético. Prazer estético, de acordo com o filósofo alemão Immanuel Kant, é sentir prazer diante do belo. De maneira que, prazer estético foi o que eu senti quando a vi pela primeira vez.”
Assim, começa o conto Gilda, que estou escrevendo para o portal de literatura lésbica Wonderclub. Mas afinal, quem é Gilda?
Gilda é uma prostituta, uma pessoa não aceita pela sociedade.Gilda carrega no rosto os sinais da incompreensão de seus pares, de sua família, de seus clientes. Gilda é o feminino de cada uma de nós. Gilda é o lado da vida que ninguém quer ver. Gilda é só desamor. Gilda poderia ser eu ou você que está lendo esse texto.
Até que um dia, por um acaso da vida, ou por uma conjunção astrológica, Gilda encontra alguém que é o seu avesso, uma mulher que de tão diferente dela pode vir a ser a única a entendê-la, que pode tanto vir a ser seu único amor quanto alguém letal ao seu coraçã…